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Artigo Científico: Relação entre deficiência de ferro e função tireoidiana

Ferro é um nutriente essencial para diversas funções fisiológicas, por isso que a sua deficiência é tão grave e está associada com muitas disfunções clínicas; a mais conhecida e comum é a anemia. O artigo que foi traduzido e resumido a seguir irá expor quais são as evidências atuais para o impacto da deficiência de ferro nas doenças tireoidianas!  

Introdução

Em pacientes com doenças tireoidianas a anemia por deficiência de ferro é uma comorbidade comum, afetando quase 5% da população. 

O funcionamento da enzima peroxidase tireoidiana (TPO), importante para produção de hormônios tireoidianos, é afetado pela deficiência de ferro, gerando impacto negativo na síntese e função dos hormônios tireoidianos. 

A deficiência de ferro também é comum entre mulheres grávidas e em idade fértil. Os hormônios tireoidianos desempenham um papel crucial no desenvolvimento fetal.

O objetivo do estudo em questão é resumir e avaliar as evidências disponíveis sobre a associação entre o estado de ferro e a função tireoidiana, a prevalência de deficiência de ferro em pacientes com doenças da tireoide e o impacto da suplementação de ferro na a função da tireoide. 

Materiais e Métodos 

A pesquisa foi conduzida em 2023 nas bases de dados Pubmed e Scopus. Foram incluídos estudos com modelo transversal, ensaio clínico randomizado controlado, caso-controle e coorte. Consideraram apenas estudos em que a amostra era composta por adultos, ou mulheres grávidas 

Entre os critérios de exclusão: estudos realizados em pacientes com comorbidades, ou em uso de medicamentos que afetem a função tireoidiana ou o nível de ferro; idade inferior a 18 anos; modelo de estudo in vitro, em animais, relatos de casos.

Resultados e Discussão 

Apenas dez estudos, de quatrocentos e dezoito encontrados, foram considerados para essa revisão. Nove avaliaram a associação entre deficiência de ferro (DI) e a função tireoidiana em mulheres grávidas ou em idade fértil. Apenas um estudo foi realizado na população geral.

Sete relataram uma relação direta com a gravidade da deficiência de ferro e os níveis do hormônio estimulador da tireoide (TSH). Os pacientes com DI apresentaram valores mais elevados, em comparação ao grupo controle. No entanto, três estudos não mostraram diferenças significativas nos níveis de TSH entre pacientes com e sem DI. 

Em quatro estudos, pacientes com DI, apresentaram aumento na prevalência de positividade para anti-tireoperoxidase (anti-TPO); já para anti-tireoglobulina (anti-Tg) em dois estudos. Apenas um estudo não encontrou diferenças nos níveis de anti-TPO e anti-Tg em relação aos níveis de ferritina sérica.

Níveis mais baixos de TSH, FT4 e FT3 foram encontrados em mulheres grávidas. As mulheres não grávidas apresentaram significativamente níveis séricos mais baixos de FT4 e FT3, mas sem diferença nos valores de TSH. 

É possível que as variações encontradas sejam por conta das diferentes populações incluídas nos estudos, alguns avaliaram gestantes, outros mulheres em idade fértil e alguns população em geral. 

Esta revisão sistemática e metanálise tem algumas limitações. Diferentes populações foram incluídas nos estudos, sendo a maioria realizada em mulheres grávidas. 

Os estudos consideraram diferentes pontos de corte de ferritina sérica para o diagnóstico de DI, apesar de <20 ng/dL ser comumente o ponto de corte. Além disso, muitos não consideram o nível sérico de iodo. 

A maioria dos estudos da literatura que incluem grupo controle são transversais. Ensaios prospectivos randomizados e controlados são necessários para esclarecer a importância do estado nutricional do ferro na saúde da tireoide, inclusive na população em geral ou em outros grupos de pacientes.

Alguns estudos sugerem que a DI está associada a um risco aumentado de disfunção tireoidiana, mas outros não encontraram nenhuma associação significativa. As evidências científicas ainda são inconclusivas e os resultados conflitantes. 

Conclusão 

Estudos publicados atualmente na literatura indicam uma possível relação entre ID, função tireoidiana e autoimunidade, especialmente em alguns grupos de pacientes. 

Análise de dados mostra que os níveis de hormônio tireoidiano são mais baixos em pacientes com DI, principalmente em gestantes. 

Apesar das limitações, a revisão em questão observou que a deficiência de ferro está associada com um aumento significante da prevalência de positividade de autoanticorpos tireoidianos (anticorpos antitireoglobulina e anticorpos antiperoxidase tireoidiana). 

Confira o artigo na íntegra aqui: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38004184/ 

Até mais! 

Atualidades

Cuidado Nutricional: Doenças Tireoidianas

As doenças tireoidianas englobam um grupo de condições clínicas que atingem a tireoide, responsável pela produção de T3 (triiodotironina) e T4 (tiroxina). 

A etiologia, os sinais e sintomas mudam de acordo com a disfunção presente, hipertireoidismo ou hipotiroidismo, e suas variações clínicas (1). 

Como em muitas condições de saúde, o tratamento das doenças tireoidianas também é multiprofissional, incluindo a importante atuação do nutricionista.

E qual o papel da nutrição e alimentação nas doenças tireoidianas?

O metabolismo da tireoide pode ser afetado pelo excesso ou falta de iodo, assim como pela deficiência de micronutrientes importantes. Para a saúde pública, intervenções como a iodação do sal visam regular exatamente isso.

No atendimento individual o nutricionista pode, entendendo qual o quadro de disfunção tireoidiana presente, avaliar quais estratégias nutricionais podem ser aplicadas para prevenção de agravamentos ou auxiliar na estabilidade do quadro clínico atual.

Estratégias nutricionais

  • Atenção aos exames laboratoriais: para o acompanhamento de disfunções tireoidianas é possível solicitar os níveis de TSH e T4 livre, lembrando que o diagnóstico é sempre médico;
  • Educação nutricional: é importante promover autonomia alimentar, principalmente em condições crônicas de saúde, assim podem realizar melhores escolhas ao entender as suas restrições;
  • Adequações dietéticas: o consumo de alguns nutrientes são essenciais para o funcionamento da tireoide e produção dos hormônios que regulam as funções tireoidianas. Atenção para:
    • Selênio – as enzimas tireoperoxidase, glutationa peroxidase e deiodinases são dependentes de selênio;
    • Ferro – mineral essencial para reações de peroxidação presentes no metabolismo dos hormônios tireoidianos;
    • Zinco e Magnésio – minerais atuantes em diversas reações enzimáticas, por isso essenciais para o metabolismo da tireóide.

Esse foi um breve resumo, esperamos que a sua conduta clínica esteja sempre baseada em evidências científicas e com apoio de outros profissionais qualificados! 

Deixamos dois consensos brasileiros sobre o tema nas referências, confira!

Até mais! 

REFERÊNCIAS

  1. SGARBI, J. A., et al. Consenso brasileiro para a abordagem clínica e tratamento do hipotireoidismo subclínico em adultos: recomendações do Departamento de Tireoide da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Arq Bras Metab., v. 57, n.3, p. 166-183, 2013. http://dx.doi.org/10.1590/S0004-27302013000300003
  2. MAIA, A. L., et al. Consenso brasileiro para o diagnóstico e tratamento do hipertireoidismo: recomendações do Departamento de Tireoide da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Arq Bras Metab., v. 57, n.3, p. 205-232, 2013. http://dx.doi.org/10.1590/S0004-27302013000300006 
  3. FARIAS, C. R; KNOBEL, M. in Bases Bioquímicas e Fisiológicas da Nutrição: nas diferentes fases da vida, na saúde e na doença. Barueri: Manole, 2 ed., p. 1298-1324, 2020.