Atualidades

Alergia ao trigo, doença celíaca e sensibilidade ao glúten não celíaca

Há anos os rótulos de alimentos são obrigados a informar se há glúten nas preparações e produtos devido às condições clínicas que exigem tal restrição (Lei 10.674/03). 

Desde então, o termo glúten ganhou muito mais visibilidade, permitindo que mais pessoas passassem a ter conhecimento sobre a necessidade de tal alerta nos rótulos. No entanto, muita desinformação também ganhou espaço. 

Diferentes termos têm sido utilizados para justificar a restrição de alimentos que contenham glúten. Alguns corretos, mas outros não. O que seria a alergia ao trigo, doença celíaca e sensibilidade ao glúten não celíaca? Há diferença? 

Considerando a importância da temática e a sua complexidade, não apenas para o público, mas também para muitos profissionais, abordaremos de forma resumida essas distinções.

Alergia ao trigo

É uma reação imunológica adversa, mediada por IgE, às proteínas desse alimento. Os sintomas podem ser respiratórios, gastrintestinais, e/ou dermatológicos. O diagnóstico é realizado por dosagem sérica de IgE e o teste cutâneo – prick test (1). 

No caso do trigo, as frações proteicas mais comumente associadas às reações alérgicas são: ​​albumina hidrossolúvel, globulinas solúveis, prolaminas, gliadinas (alfa, beta, delta e ômega), glutelinas e gluteninas (2).  

Doença celíaca 

É uma condição inflamatória crônica desencadeada pelo consumo de glúten. Tem caráter imunológico, mas não é mediada por IgE. Nesse caso, com a inflamação há atrofia das vilosidades intestinais, má absorção dos nutrientes e manifestações gastrointestinais. 

O diagnóstico se dá por marcadores sorológicos, anti-glutaminase antitecidual (AAG) e anticorpo antiendomísio (AEM), além da biópsia tecidual na segunda porção do intestino, para confirmação de atrofia vilosa (3). 

O tratamento consiste em uma dieta livre de glúten. Na doença celíaca a restrição pode ser mais intensa, sendo necessário restringir alimentos que possam ter passado por contaminação cruzada, por exemplo. Alguns pacientes não podem nem consumir os alimentos preparados no mesmo utensílio ou ambiente que outros com glúten. 

Sensibilidade ao glúten 

Idealmente, apenas após a doença celíaca e a alergia ao trigo serem descartadas, a sensibilidade ao glúten não celíaca passa a ser considerada (1). Essa sequência diagnóstica é justamente por não haver tanto consenso quanto a esse quadro clínico. 

Inclusive, há estudos que indicam que antes da restrição de alimentos com glúten, outras condutas podem ser testadas. Uma delas é a dieta baixa FODMAPs (4,5).

Os sintomas na sensibilidade não celíaca podem ser gastrointestinais, como desconforto e distensão abdominal, náuseas, refluxo, dor e diarreia; mas, também há relatos de dores de cabeça e musculoesquelética, fadiga e erupções cutâneas (6).

Não há mudança nas vilosidades intestinais, como na doença celíaca, mas há constatação de maiores níveis de linfócitos e eosinófilos em lâminas de tecidos duodenais e retais (6). 

O grau de restrição alimentar irá depender da sensibilidade em questão. Por exemplo, um paciente poderá se beneficiar de restringir as fontes alimentares com maior concentração de glúten, mas tolerar pequenas frações em preparações ou uma baixa frequência de consumo. 

Por ser uma condição com muitos fatores ainda não esclarecidos, a sensibilidade ao glúten não celíaca, entre as três citadas, é a que mais necessita de cautela nas orientações e maior automonitoramento do paciente. 

fonte: doi: 10.3390/medicina57060526

Para finalizarmos, as restrições devem ser condizentes com os quadros clínicos previamente diagnosticados. É importante que as orientações alimentares também sejam realizadas de acordo com a realidade e disponibilidade de recursos de cada pessoa. 

E claro, apesar do importantíssimo papel do nutricionista no curso da doença nas alergias alimentares, não há como realizar esse trabalho de forma segura sem um médico especializado na área. 

Referências 

  1. Aziz I, Hadjivassiliou M, Sanders D S. Does gluten sensitivity in the absence of coeliac disease exist? BMJ, 2012 (https://www.bmj.com/content/345/bmj.e7907.long).
  2. Brazilian Consensus on Food Allergy: 2018 – Part 1 – Etiopathogenesis, clinical features, and diagnosis. Joint position paper of the Brazilian Society of Pediatrics and the Brazilian Association of Allergy and Immunology (http://aaai-asbai.org.br/detalhe_artigo.asp?id=851). 
  3. Manual MSD. Versão para profissionais de saúde. Assuntos médicos – Distúrbios gastrointestinais – Síndromes de Má Absorção – Doença Celíaca. Atualizado em fevereiro de 2021 (https://www.msdmanuals.com/pt/profissional/distúrbios-gastrointestinais/).
  4. Mumolo MG, Rettura F, Melissari S, Costa F, Ricchiuti A, Ceccarelli L, de Bortoli N, Marchi S, Bellini M. Is Gluten the Only Culprit for Non-Celiac Gluten/Wheat Sensitivity? Nutrients, 2020. (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33321805/).
  5. Dieterich W, Zopf Y. Gluten and FODMAPS-Sense of a Restriction/When Is Restriction Necessary? Nutrients, 2019 (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31434299/).
  6. Cárdenas-Torres FI, Cabrera-Chávez F, Figueroa-Salcido OG, Ontiveros N. Non-Celiac Gluten Sensitivity: An Update. Medicina (Kaunas), 2021 (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34073654/).
Atualidades

Doença Celíaca e Níquel: qual é a relação?

A Doença Celíaca é uma desordem autoimune desencadeada pelo consumo de glúten, responsável pela condição inflamatória crônica intestinal em indivíduos geneticamente susceptíveis, que apresentam resultados positivos para o Antígeno Leucocitário Humano (HLA) DQ2 e/ou DQ8 (1). 

As principais manifestações após o consumo do glúten são gastrointestinais, como distensão abdominal, dor abdominal, diarreia e constipação. O tratamento requer uma dieta isenta de glúten e que evite o risco de contaminação cruzada. Por isso, o papel do nutricionista no tratamento é essencial.

No entanto, há quadros em que o paciente com doença celíaca segue apresentando queixas intestinais, mesmo após as restrições alimentares. O que fazer? 

Além de avaliar outras hipersensibilidades, há outras duas alternativas – avaliar e ajustar o consumo de:

Alimentos ricos em níquel

Há condições clínicas que apresentam sintomas gastrointestinais semelhantes com a doença celíaca e a síndrome do intestino irritável, como a síndrome de alergia sistêmica ao níquel (2,3).

O interessante é que muitos alimentos sem glúten contém alto teor de níquel e, assim, a sensibilidade ao níquel pode exacerbar os sintomas em indivíduos predispostos, principalmente se houver um consumo a longo prazo. São esses:

  • FRUTAS: banana, pêssego, uva, abacaxi, figo, morango, cacau, pera e cereja. 
  • VEGETAIS: alface, couve-manteiga, espinafre, tomate, aspargos, cebola, salsão, cenoura e vagem. 
  • CEREAIS E TUBÉRCULOS: batata, milho, aveia, e trigo sarraceno.
  • LEGUMINOSAS E OLEAGINOSAS: grão-de-bico, lentilha, ervilha, feijão, soja e amendoim.
  • PESCADOS/FRUTOS DO MAR: bacalhau, linguado, cavalinha, sardinha, marisco, camarão, lagosta, ostra e arenque.
  • OUTROS: alimentos enlatados, vinagre, ketchup, vinho tinto, café e chás.

A variabilidade de concentração de níquel nos alimentos é alta. Depende do tipo de solo, espécies de plantas, água de irrigação, fertilizantes e pesticidas. Assim, por ser impossível sua eliminação total da dieta, a recomendação é de evitar os alimentos com alto teor estimado de Ni (Ni> 100 μg / kg).

Alimentos ricos em FODMAPs

Nesse caso, uma dieta pobre em polióis e oligo -, di- e monossacarídeos fermentáveis (FODMAPs) pode amenizar os sintomas gastrointestinais. Principalmente por esses alimentos serem responsáveis por uma maior fermentação intestinal, podendo causar distensão, gases e outros sintomas semelhantes.

  • FRUTAS: maçã, cereja, abacate, banana, manga, pêssego, pera, melancia, nectarina, ameixa. 
  • CEREAIS E TUBÉRCULOS: amaranto, trigo, centeio, arroz, centeio, quinoa.
  • FRUTAS: maçã, cereja, abacate, banana, manga e coco.
  • LEGUMINOSAS E OLEAGINOSAS: ervilhas, feijões, pistache, castanha de caju.
  • VEGETAIS: abóbora; aspargos, alcachofra, cebola, alho, beterraba, couve, aipo.
  • OUTROS: mel, cevada, adoçantes, inulina, café instantâneo e chá de camomila.

Curiosidade: os números são maiores para o sexo feminino, tanto para a doença celíaca (3:1 (mulher/homem) quanto para a hipersensibilidade ao níquel (15 a 20%).

Outras referências: 

Borghini, R. Efeitos benéficos de uma dieta com baixo teor de níquel na recidiva de sintomas semelhantes ao IBS e extra intestinais em pacientes celíacos durante uma dieta sem glúten adequada: Mucosite de contato alérgica com níquel na suspeita de doença celíaca não responsiva. Nutrients 2020 , 12 (8), 2277.

Atualidades

Artigo Científico: Suplementação de Creatina na Nutrição

Muitos suplementos demonstraram a sua efetividade e segurança há muito tempo, se popularizando e sendo facilmente adquiridos, como o whey protein, por exemplo. Mais recentemente, a creatina também ocupou esse lugar. 

Ambos os suplementos são, em geral, utilizados por um público que busca o aumento, e a manutenção, da massa e força muscular; visando resultados estéticos ou na performance esportiva. No entanto, novos estudos vêm demonstrando outras associações e possíveis indicações para o uso de creatina. 

Então, o que há de evidência sobre a suplementação de creatina? Hoje, a tradução e adaptação de um recente estudo responde exatamente a essa pergunta. 

Introdução

Há resultados na suplementação de creatina além do âmbito esportivo? Vislumbrando auxiliar outras populações, novos estudos foram conduzidos com indivíduos idosos, imobilizados ou pacientes em risco de atrofia muscular.

Resultados

População

Houve um resultado significativamente melhor em indivíduos mais jovens (18 a 30 anos).

Em indivíduos com a imobilização de um membro, simulada por uso de gesso, a suplementação de creatina apresentou resultados ainda controversos na preservação da massa muscular. 

Para indivíduos idosos, a indicação tem sido proposta em decorrência da sarcopenia. No entanto, apenas um estudo, entre os avaliados, apresentou resultados positivos na densidade muscular (nos membros inferiores).

Importância do treinamento físico 

Apesar de ser um suplemento mais utilizado em atividades focadas em resistência e potência, benefícios foram observados em outras modalidades de treinamento. Os resultados foram avaliados sempre após um período de treinamento, destacando a importância do estímulo externo gerado pelo exercício físico.

Dosagem e protocolos

Diferentes dosagens foram aplicadas e poucos estudos não utilizaram o protocolo de “carregamento”; em que uma maior dose é utilizada nos primeiros dias e depois uma menor dose é indicada para o uso contínuo. 

Em média, as seguintes doses poderiam ser indicadas: 

  • Carregamento (loading): 20g/dia ou 0.3g/kg/dia por 5 a 7 dias 
  • Manutenção (maintenance): 3-5g/dia ou 0.03g/kg/dia por > 28 dias

Conclusão

Atualmente, há evidências estabelecidas para o uso de creatina apenas em indivíduos mais jovens. Apesar de promissores, os resultados em indivíduos idosos ainda precisam ser melhor explorados, com a metodologia sempre alinhada, buscando estabelecer resultados mais factíveis para uma melhor indicação clínica. 

Acesse o artigo na íntegra clicando aqui. 

Até mais!

Vida de nutricionista

Orientações para a Páscoa

Recado importante: esse texto expressa uma opinião pessoal, ou seja, não é um aconselhamento profissional e você não precisa concordar comigo! Boa leitura 🙂

Para muitos a celebração da páscoa pode ser resumida em uma palavra: chocolate! No entanto, você sabe o significado dessa data? Diferentes percursos e significados podem ser encontrados até o primeiro registro da produção de um ovo de chocolate, em 1873.

Lebres e ovos coloridos eram símbolos da fertilidade e renovação na mitologia nórdica. No judaísmo, a páscoa simboliza a libertação dos judeus. Para o cristianismo, a ressurreição de Cristo.

Mas, foi só com o catolicismo que uma associação com o chocolate começou. Ao acreditarem que a bebida feita do cacau não poderia quebrar o jejum da quaresma, o consumo desse alimento foi sendo inserido nessa época festiva (1).

https://en.wikipedia.org/wiki/Pysanka

Atualmente, o chocolate ainda cumpre um papel simbólico. Conforme a data se aproxima, ovos de páscoa são vistos em todas as lojas e maior é a motivação externa para comer esse alimento.

Como o nutricionista pode orientar esse consumo?

  • Há orientações nutricionais que precisam ser baseadas em restrições alimentares, mas não quer dizer que um produto sem açúcar ou lactose será necessariamente mais saudável.
  • É importante ressaltar ao cliente/paciente que tudo dependerá do contexto e que nenhum consumo em excesso, independente do alimento, é saudável.
  • Antes da data é possível indicar produtos ou receitas, principalmente em casos de pessoas com restrições alimentares que gostem de preparações diferentes em datas celebrativas. Algumas sugestões:
http://paveg.com.br/ovo-de-pascoa-vegano-(de-colher/)
http://paveg.com.br/bombom-vegano-recheado/
  • Em consulta posterior à data, é importante abordar sobre o consumo de chocolate e outros alimentos durante a páscoa. Muitas pessoas podem realizar restrições ou compensações disfuncionais e o aconselhamento nutricional será essencial para esses casos.

E você, vai fazer questão de comer chocolate nessa data? Quais fatores estão guiando a sua escolha? Já parou para pensar como é a sua relação com a comida?

Te desejamos uma boa paz(coa).

Até mais!