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Abril Azul: Qual é o papel do nutricionista?

A campanha Abril Azul visa conceder mais atenção ao Transtorno do Espectro Autista (TEA), conhecido também como autismo. Por essa condição atingir várias áreas da vida, a abordagem terapêutica deve ser multiprofissional. Desde 2012 há direito estabelecido por lei para atenção nutricional adequada, assim como acesso à terapia nutricional (1, 2).

No transtorno do espectro autista (TEA) há alterações do desenvolvimento neurológico. Não há características físicas ou comportamentais únicas, e sim uma série de condições atípicas em cada caso, por isso o diagnóstico e tratamento podem ser tão complexos (3).

Em casos de TEA existem alterações no consumo alimentar, incluindo seletividade alimentar e risco de deficiências de micronutrientes. Dessa forma, a análise do estado nutricional é essencial para o tratamento, pois também impacta no funcionamento neurológico.

Uma meta-análise recente, que incluiu 32 estudos e mais de 18 mil participantes, demonstrou que essa população apresenta menor ingestão de proteínas, cálcio, vitaminas lipossolúveis (como A, D e K) e hidrossolúveis (como folato, tiamina, riboflavina e niacina).

Também foi observado que crianças com TEA tendem a apresentar menor estatura em comparação com crianças com desenvolvimento típico, possivelmente relacionada a inadequações nutricionais. Esses achados reforçam a relevância da avaliação nutricional precoce e contínua nessa população (8).

Quais os principais pontos de atenção nutricional?

  1. Alimentação seletiva: é comum ocorrer aversão a certos alimentos, ou restrições por intolerância/alergia, ocasionando no baixo consumo de fibras, ômega 3, ferro, cálcio, zinco, cobre e vitaminas D, A, e C. O menor consumo de vitaminas e minerais pode que pode impactar no crescimento, função cognitiva e metabolismo energético (4);
  2. Estado nutricional e suplementação: exames bioquímicos devem ser monitorados para avaliar a necessidade de suplementação vitamínica. Existe maior potencial de estresse oxidativo e capacidade reduzida de transporte de energia, por isso há necessidade diferenciada de micronutrientes (4);
  3. Educação alimentar: há frequente eletividade/aversão para cores, texturas, cheiros, temperatura, sabor e modos de preparo dos alimentos. Esse cenário interfere no consumo alimentar, por isso deve acontecer uma orientação cautelosa com os responsáveis e estratégias criativas com os pacientes para aumentar o repertório alimentar (4); 
  4. Estratégias nutricionais: uso de aminoácidos como cisteína e metionina, além de ácido fólico, vitamina B6 e B12, pois são nutrientes essenciais para a síntese de glutationa (GSH) e de S-adenosilmetionina (SAM). Esses compostos estão relacionados à regulação do estresse oxidativo, metilação e função neurológica (4); 
  5. Alterações gastrointestinais: há maior recorrência de refluxo, dor abdominal, diarreia, constipação e alterações de permeabilidade na microbiota intestinal. Por isso, há benefício do uso de probióticos melhora dos sintomas e modulação de substâncias como serotonina, melatonina e acetilcolina (5,6);
  6. Evitar falas/atitudes capacitistas: quando há pouco conhecimento sobre a condição apresentada, falas ou atitudes podem expressar a ideia de que pessoas com autismo são incapazes. Uma abordagem centrada na pessoa, respeitando suas individualidades, é essencial para um cuidado ético e efetivo (7).

A seguir, para complementar as pesquisas e estudos, indicações de artigos científicos:

Até mais!

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Artigo Científico: Suplementação proteica e de nutrientes neuroprotetores para a cognição e composição corporal de idosos

Nota do autor: é importante considerar que o estudo foi realizado em uma amostra reduzida, com um produto pronto, dependente de disponibilidade e acesso. Assim, não é um estudo no qual indicamos basear condutas clínicas. No entanto, o mesmo ainda se mantém importante por indicar possibilidades no cuidado nutricional.  

Introdução

A sarcopenia e o declínio cognitivo são duas questões de saúde comum entre idosos, com grande impacto no estilo de vida e que demandam bastante atenção, tanto dos cuidadores, quanto dos profissionais da saúde.

Para a nutrição, algumas estratégias visam retardar ou prevenir o desenvolvimento de ambas condições clínicas. Além da ingestão adequada de macro e micronutrientes, estudos recentes têm avaliado o impacto dos suplementos para a saúde dessa população. 

O estudo em questão analisou os efeitos de um suplemento hiperproteico enriquecido com nutrientes associados com a neuroproteção no estado nutricional, risco de sarcopenia e melhora da função cognitiva de idosos. 

Metodologia 

A amostra foi composta de mulheres idosas, residentes em uma instituição de cuidado. O estudo foi prospectivo, randomizado, cross-over, placebo-controlado e duplo-cego. 

O suplemento utilizado foi o “All Nutri Senior”, já o grupo controle recebeu o “Cereal Senior”, um suplemento padrão à base de cereais, isocalórico, sem acréscimo de proteína ou mix de nutrientes. 

Para avaliar o impacto na cognição foi aplicado o questionário Mini-Exame do Estado Mental (MEEM). Já a avaliação do risco de sarcopenia foi feita por meio da aplicação do questionário SARC-F + CP. 

Resultados e Discussão 

O suplemento teve boa aceitação, com preferência de consumo no desjejum ou lanche da tarde. Entre as participantes, treze relataram maior saciedade com o consumo do mesmo. Também foi observada a redução de idosas com alterações gastrointestinais, como a constipação. 

Quanto ao risco de sarcopenia, o valor médio do SARC-F reduziu de 5,9 para 4,3, após o período de uso (oito semanas) do suplemento “All Nutri Senior”; o valor sugestivo de sarcopenia é superior a 11.

Por fim, também houve melhora nos resultados do MEEM, com aumento da pontuação média de 24,9 para 25,8; o valor indicativo de demência é menor ou igual a 24.

Conclusão 

A partir dos resultados foi possível concluir que o uso do suplemento por oito semanas gerou impactos positivos na capacidade cognitiva e redução do risco de sarcopenia. Também foi observado melhora da constipação e saciedade, além da redução do percentual de gordura corporal e ganho de massa muscular. 

O que achou? Não esqueça de conferir o artigo na íntegra: 

https://braspenjournal.org/article/doi/10.37111/braspenj.2023.38.2.08

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Artigo Científico: Efeito do uso de canela na resposta glicêmica de adultos em pré-diabetes

Pré-diabetes é uma situação caracterizada pelo nível de glicose no sangue acima do valor de referência, mas que não cumpre os critérios diagnósticos para diabetes. No entanto, é um resultado muito importante, um sinal para realizar mudanças (1).  

Durante esse período, em alguns casos, a situação ainda pode ser revertida. Para outros, existe a possibilidade de reduzir a evolução do diabetes e as suas complicações. Por isso, tantos estudos investigam estratégias para pacientes com pré-diabetes. 

Confira no texto de hoje um estudo que analisou o efeito de canela na resposta glicêmica de adultos em pré-diabetes e obesidade!

Introdução

Estudos já demonstraram que o consumo de canela pode reduzir a concentração sanguínea de glicose e lipídios em pacientes com diabetes tipo 2, pré-diabetes, além de também afetar positivamente indivíduos saudáveis. 

A hipótese é que essa resposta aconteça devido ao conteúdo de polifenóis na canela. As doses nos estudos variam de 0,5g até 6 g/dia, com um intervalo de quatro a doze semanas. 

No entanto, ainda existem resultados controversos sobre o assunto com metodologias não compatíveis. Por isso, o estudo em questão buscou respostas para tais lacunas. 

Metodologia 

Os participantes foram observados por um período total de doze semanas, considerando o período de washout, em um estudo randomizado, controlado, duplo-cego e cruzado. 

Os indivíduos (n=18) tinham mais de dezoito anos, consumiam uma dieta baixa em fibras e polifenóis, tinham sobrepeso ou obesidade (IMC 25-40 kg/m2) e apresentavam pré-diabetes definida por glicemia em jejum entre 100 e 125 mg/dL ou hemoglobina A1c entre 5,7 e 6,4%. 

Antes da intervenção, por um período de duas semanas, todos os participantes iniciaram uma dieta baixa em polifenóis e não consumiram canela. Essa dieta foi seguida durante as doze semanas de estudo. 

A dose utilizada foi de 4 g/dia de canela (C. burmannii), com o consumo de dezesseis cápsulas todos os dias, oito no café da manhã e oito no jantar. Já aqueles que consumiram placebo (cápsulas de maltodextrina), também seguiram a mesma rotina. 

Um porta-cápsula foi fornecido a cada semana, em geral, os participantes consumiram 75% do que foi fornecido durante o período. O nível de glicemia da amostra durante o estudo foi monitorado por dispositivos de monitoramento contínuo da glicose (CGM).

Resultados

Durante o período observado, o consumo de 4 g/dia de canela reduziu a concentração sérica de glicose, em comparação com placebo. Após quatro semanas de suplementação houve redução na concentração de triglicerídeos, assim como aumento na expressão do hormônio peptídeo inibidor gástrico (GIP).

Houve boa aderência dos participantes e sem efeitos controversos ou digestivos. Na prática, 4 g de canela, dose utilizada no estudo, pode ser consumida com facilidade, tanto na forma de suplemento, como acrescentada nas refeições.

Conclusão

Canela é facilmente encontrada e pode servir como suplemento de baixo custo com ótimos resultados. Quando acrescentada na dieta, principalmente dentro da dosagem consumida no estudo, pode contribuir para redução da glicemia em pacientes com pré-diabetes e obesidade.

O que achou do nosso resumo? Não esqueça de conferir o artigo na íntegra: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38290699/ 

Até mais!