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Artigo Científico: Evidências atualizadas sobre o consumo de cafeína na gestação

A cafeína, substância classificada como metilxantina, está presente em café, chás, refrigerantes e diversos produtos alimentares. Estima-se que até 85% da população mundial consuma cafeína diariamente.

A cafeína tem potencial de atravessar a placenta e é estimulante do sistema nervoso central. Por isso, a substância deve ser evitada no período gestacional e os seus impactos são estudados há anos.

Atualmente, as recomendações não são completamente uniformes. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda um consumo limitado, até 300mg/dia. Já o Colégio Americano de Obstetrícia e Ginecologia (ACOG) orienta até 200mg/dia. As diferenças nas recomendações podem gerar confusão, baixa adesão à prescrição e um consumo superior ao limite seguro.

  • Biodisponibilidade e Metabolismo da Cafeína

Durante a gravidez alterações fisiológicas no metabolismo da cafeína ocorrem. A atividade da enzima CYP1A2 diminui ao longo dos trimestres, prolongando a meia-vida da substância, que normalmente varia de 4 a 5 horas, para até 15 horas no terceiro trimestre. A desaceleração desse processo torna a gestante mais suscetível aos efeitos adversos da cafeína, mesmo que padrão de consumo pré-gestação seja mantido.

  • Riscos e Implicações para a Saúde Materno-Fetal

Em relação aos desfechos maternos, não há evidência consistente de aumento do risco de diabetes gestacional com consumo moderado de cafeína. Inclusive, em alguns estudos, ingestões de até 100 mg/dia por 16 a 22 semanas foram associadas à redução de 47% no risco de Diabetes gestacional (DMG).

Também não foi identificada associação significativa entre consumo leve a moderado com a ocorrência de hipertensão gestacional ou pré-eclâmpsia. No entanto, o consumo habitual de café ou chá rico em cafeína esteve associado a risco aproximadamente duas vezes maior de anemia, possivelmente por interferência na absorção de ferro não-heme.

Quanto aos desfechos obstétricos, gestantes com o consumo mais elevado, entre 205 e 5080 mg/dia, apresentaram risco 94% maior de parto prematuro no segundo trimestre. Ingestões superiores a 300 mg/dia também foram associadas a maior risco de perda gestacional recorrente, embora sem significância estatística consistente.

Além disso, as evidências indicam associação dose-dependente entre ingestão materna de cafeína e redução do peso ao nascer, com maior risco de neonato pequeno para idade gestacional (PIG). Mesmo ingestões abaixo de 200 mg/dia foram associadas, em alguns estudos, a um menor peso ao nascer.

Estudos em modelos animais reforçam esses achados ao demonstrarem restrição de crescimento intrauterino, alterações hepáticas e metabólicas, disfunções ósseas e articulares, alterações epigenéticas e genotoxicidade. Contudo, muitos desses experimentos utilizaram doses proporcionalmente superiores às normalmente consumidas por humanos, limitando a extrapolação direta dos resultados.

  • Recomendações e orientações

Considerando que a depuração da cafeína torna-se reduzida durante a gestação, aumentar o intervalo entre ingestões pode ser uma orientação nutricional mais assertiva, sendo o período recomendado de 24 a 36 horas.

É importante também avaliar o teor de cafeína presente em cada alimento ou bebida consumida, uma vez que as concentrações variam conforme tipo de preparo, volume e marca. O artigo em questão apresentou em anexo a tabela abaixo.

  • Limitações

A formulação de recomendações mais precisas é dificultada pela alta variabilidade genética da atividade da CYP1A2. A ausência de mensuração da depuração plasmática de cafeína nos estudos também limita os resultados.

Além disso, a maioria dos estudos depende de autorrelato de consumo, o que introduz viés de mensuração. Fatores como tabagismo, IMC, padrão alimentar, status de ferro e polimorfismos genéticos nem sempre são plenamente controlados, contribuindo para inconsistências entre os achados.

  • Conclusões

O consumo de cafeína durante a gestação apresenta associação com neonato com baixo peso ao nascer, maior risco de prematuridade (altas doses) e possível aumento do risco de anemia materna.

Embora não exista consenso absoluto sobre um limite totalmente seguro, os dados reforçam a necessidade de moderação, avaliação individualizada e acompanhamento profissional durante o pré-natal.

Considerando que a meia-vida pode ultrapassar 15 horas no terceiro trimestre, estratégias baseadas apenas em “mg/dia” podem não refletir o risco acumulativo do consumo de cafeína. Por isso, uma orientação é aumentar o intervalo do consumo, para 24h a 36h.

O estudo analisado reconhece as limitações e propõe que estudos prospectivos robustos sejam realizados, com a finalidade de definir limites seguros baseados em dose-resposta.

Confira o artigo na íntegra: https://www.mdpi.com/2072-6643/17/19/3173

Até mais!

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